COMPROMETIDO
“Você terá de escolher: ou
seus charutos ou eu.”
ABRA a velha charuteira,
dê-me um Havana encorpado,
Que meu noivado meu com
Maggie está ficando complicado.
A causa da desavença reside
no meu charuto.
Acuso-a de intransigência,
diz ela que eu sou um bruto.
Abra a velha charuteira –
que eu quero ficar entregue
Aos auspícios da fumaça,
lembrando a face de Maggie.
Maggie é bonita de ver – promessa de amor certeira –
Mas beleza acaba em ruga e amor não dura a vida inteira.
Tão pacato é um Laranaga,
pacífico um Henry Clay,
E o melhor dos bons charutos
em uma hora já fumei.
Fumei e troquei por outro –
novinho, enxuto, perfeito –,
Já trocar Maggie por outra
não será tão bem aceito.
Que tal Maggie em seus
cinqüenta, grisalha, ranzinza e velha,
Sem Maggie sobressalente que
restitua a centelha!
Nem que o fogo do passado se
torne a luz do presente,
Quando o amor recenda sarro,
como cinza remanente,
A ponta de um bom charuto –
mas morto no bolso – pode
Concorrer com fumo novo, que
ao pigarro nos acode.
Abra a velha charuteira – que
o momento é de escolher:
Aqui um suave Manilla; lá, um
sorriso de mulher.
Qual será o melhor partido:
servidão selada a anel
Ou um harém de folhas finas
ofertadas a granel?
Cinquenta noivas por caixa –
conforto sincero e certo –,
Nenhuma delas bicuda com
tanta rival por perto.
Meditação matutina; consolo
em tempo de dor;
Paz na calada da noite; e, à
porta do sono, torpor.
Eis o dote que as cinquenta,
em sacrifício, me darão
Com devoção de satis – incineradas
na missão.
Eis o dote que as cinquenta
me darão sem compromisso
E, mortas, outras cinquenta
já estarão a meu serviço.
As ilhas das Caraíbas, e a
ilha de Java também,
Cuidarão de manter sempre
renovado meu harém –
Harém nurrido sem joias nem
sedas nem pão-de-ló –,
Caiam raios ou gaivotas, faça
chuva ou faça sol.
Só o perfume da baunilha e o
tempero de um bom chá
Darão fama às minhas noivas de
invejar as de um paxá.
E Maggie insiste, por carta,
que eu faça a escolha mofina
Entre o merencório Amor e a
grande deusa Nicotina.
Faz doze minguados meses – se
tanto – que eu sigo o amor,
Mas das graças de um Partagas
sou primígeno cultor.
Minha vida de solteiro, por
sete anos ou mais,
Brilha nos tocos que acendo,
quer na guerra quer na paz.
Mas se o futuro com Maggie
não der ponta que acender,
Nada mais que o Amor estranho
dará luz ao que vier.
Será luzeiro seguro ou morro
com ele na lama?
Cubro de uma baforada ou sigo as chispas desta chama?
Abra a velha charuteira –
vale a pena perguntar:
Quem é Maggie que me ordena
amigas velhas dispensar?
Há milhares de outras Maggies
igualmente em pé de caça;
Mas mulher é só mulher, e um
bom charuto é Fumaça.
Outro Havana, por favor –
estou, bem sei, comprometido,
Mas Maggie não quer rivais,
serei tampouco seu marido.
Rudyard
Kipling
(Tradução: Gil
Pinheiro)