domingo, 30 de outubro de 2011

Este blogue tem mãe!

Transmilongas

Este blogue nasceu na sala feita com muito esmero da casa de uma moça selvagem. Entre cervejas e torradas, tiramos do baú minhas milongas – nome que dou a essas traduções/traições por reconhecer que são infiéis, mas detestar cocosismos do tipo transcriações, transcríticas, cruz-credos. Nesse movimento, revisitamos palavras rabiscadas a vida pelos séculos, de Cavalcanti a cummings. Palavras que não mereceriam o desdém com que têm sido tratadas pela beavis-buttheadesca empáfia contemporânea.

Obrigado, Sandrinha, pela força que só poderia vir de quem sabe que viver não é para principiantes. E que, quando a era do conhecimento passar, o conhecimento da era há de achar um lugar. Let’s make it new.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

William Shakespeare, Soneto 129



SONETO 129

Espírito lançado ao vício, em ato,
Em potência, o desejo é derrisório,
Mortal, feroz, perverso e sem recato,
Selvagem, rude, excêntrico e ilusório;
Mal satisfeito logo é preterido;
Buscado insanamente, se encontrado,
Insanamente acaba repelido,
Qual isca que tortura o capturado;
Loucura por caçar do caçador,
Por ter e por ter tido e vir a ter;
Na prova, gozo; no provado, dor,
Sonho depois de bem vivido ser.
    Mas se isso é fato conhecido e eterno,
    Não tolda o céu que leva a tal inferno.
  
William Shakespeare
(tradução: Gil Pinheiro)

William Shakespeare, Soneto 61

SONETO 61

É teu desejo que esta imagem tua
Me venha à noite as pálpebras abrir?
Que meu descanso e lassidão destrua
Na sombra incerta em que te vejo a rir?
Será que é teu espírito que envias
De tão longe de casa a me espreitar,
A ver se em erro ou ócio acha meus dias,
A fim de teu ciúme alimentar?
Não! Teu amor não é tão grande assim!
É meu amor que os olhos me arregaça,
E, verdadeiro, a meu torpor põe fim,
A especular de tudo que te passa;
          Pois que te vejo a andar a céu aberto,
          De mim distante e tantos outros perto.

William Shakespeare
(tradução: Gil Pinheiro)

William Shakespeare, Soneto 29


SONETO 29

Quando, em desgraça aos olhos de meus pares,
Minha penúria choro em desatino
E imploro ao céu que cesse meus penares
E amaldiçoo a mim e a meu destino;
Ou, vendo um homem de mais rica sorte,
Invejo os bens que tem e cada amigo   
E tudo em que é mais destro e em que é mais forte,
Já desdenhando do que em mim bendigo;         

Se neste estado que me entenebrece,

Inopinadamente, penso em ti,

És como a cotovia que amanhece  

E cujo canto chama o sol a si;

    Pois, de lembrar o amor que tens por mim,

    Nem sei de rei que seja rico assim.

 

William Shakespeare

(tradução: Gil Pinheiro)

Archibald MacLeish, O que Todo Amante Aprende

O QUE TODO AMANTE APRENDE

Água é prata bruta contra pedra.
Água é prata bruta contra não
De pedra. Água não flui, infiltra,
Aflora, cada fissura, cada
Vão de pedra, cada poro. Rio
Não é correr. Rio é roçar de prata
bruta contra pedra, e pedra é não.

                                        O que cor-
re, infando, arfando à flor do sol,
é o não – recusa de rio, não rio.

Archibald MacLeish
(tradução: Gil Pinheiro)

Rudyard Kipling, Comprometido

COMPROMETIDO

“Você terá de escolher: ou seus charutos ou eu.”

ABRA a velha charuteira, dê-me um Havana encorpado,
Que meu noivado meu com Maggie está ficando complicado.

A causa da desavença reside no meu charuto.
Acuso-a de intransigência, diz ela que eu sou um bruto.

Abra a velha charuteira ­– que eu quero ficar entregue
Aos auspícios da fumaça, lembrando a face de Maggie.

Maggie é bonita de ver – promessa de amor certeira –
Mas beleza acaba em ruga  e amor não dura a vida inteira.

Tão pacato é um Laranaga, pacífico um Henry Clay,
E o melhor dos bons charutos em uma hora já fumei.

Fumei e troquei por outro – novinho, enxuto, perfeito –,
Já trocar Maggie por outra não será tão bem aceito.

Que tal Maggie em seus cinqüenta, grisalha, ranzinza e velha,
Sem Maggie sobressalente que restitua a centelha!

Nem que o fogo do passado se torne a luz do presente,
Quando o amor recenda sarro, como cinza remanente,

A ponta de um bom charuto – mas morto no bolso – pode
Concorrer com fumo novo, que ao pigarro nos acode.

Abra a velha charuteira – que o momento é de escolher:
Aqui um suave Manilla; lá, um sorriso de mulher.

Qual será o melhor partido: servidão selada a anel
Ou um harém de folhas finas ofertadas a granel?

Cinquenta noivas por caixa – conforto sincero e certo –, 
Nenhuma delas bicuda com tanta rival por perto.

Meditação matutina; consolo em tempo de dor;
Paz na calada da noite; e, à porta do sono, torpor.

Eis o dote que as cinquenta, em sacrifício, me darão 
Com devoção de satis – incineradas na missão.

Eis o dote que as cinquenta me darão sem compromisso
E, mortas, outras cinquenta já estarão a meu serviço.

As ilhas das Caraíbas, e a ilha de Java também,
Cuidarão de manter sempre renovado meu harém –

Harém nurrido sem joias nem sedas nem pão-de-ló –,
Caiam raios ou gaivotas, faça chuva ou faça sol.

Só o perfume da baunilha e o tempero de um bom chá
Darão fama às minhas noivas de invejar as de um paxá.

E Maggie insiste, por carta, que eu faça a escolha mofina
Entre o merencório Amor e a grande deusa Nicotina.

Faz doze minguados meses – se tanto – que eu sigo o amor,
Mas das graças de um Partagas sou primígeno cultor.

Minha vida de solteiro, por sete anos ou mais,
Brilha nos tocos que acendo, quer na guerra quer na paz.

Mas se o futuro com Maggie não der ponta que acender,
Nada mais que o Amor estranho dará luz ao que vier.

Será luzeiro seguro ou morro com ele na lama?
Cubro de uma baforada ou sigo as chispas desta chama?

Abra a velha charuteira ­– vale a pena perguntar:
Quem é Maggie que me ordena amigas velhas dispensar?

Há milhares de outras Maggies igualmente em pé de caça;
Mas mulher é só mulher, e um bom charuto é Fumaça.

Outro Havana, por favor –  estou, bem sei, comprometido,
Mas Maggie não quer rivais, serei tampouco seu marido.


Rudyard Kipling  
(Tradução: Gil Pinheiro)

Jorge Luís Borges, O Remorso



O REMORSO

Cometi o mais fatídico pecado
que um homem pode cometer. Não fui
feliz. Que o gelo que do olvido flui
me arraste e perca, desapiedado. 

Meus pais forjaram-me foi para o jogo
incerto, mas esplêndido, da vida
e para a terra, o ar, a água e o fogo.
Fraudei-os. Não fui feliz. Descumprida

ficou-lhes a vontade adolescente.
Ative-me às simétricas porfias
das artes, que entretecem ninharias.

Legaram-me valor. Não fui valente.
Não me abandona – sempre está a meu lado 
– a sombra de ter sido um desgraçado.

Jorge Luis Borges
(tradução: Gil Pinheiro)